domingo, 4 de junho de 2017

Maria escuta e consente

OBEDECER E CRER

            Ser obediente não é mesma coisa do que ter fé. Nem todo aquele que obedece crê; mas todo aquele que verdadeiramente acredita, confia e obedece. A obediência é um passo em direção da fé, mas a fé é muito maior do que a obediência. Esta última é apenas caminho que nem sempre leva para o nível superior da fé.

Maria é obediente na fé
            Contemplando a atitude de Maria, a Mãe de Jesus, diante do anúncio de que seria mãe, constata-se que ela é obediente, mas muito mais, ela crê além de todas as razões para obedecer. Obedecer, neste caso, é escutar, crer é consentir. Ela é obediente ao convite de Deus porque escuta, mas consente com o seu sim porque acredita na fidelidade de quem se revela. Maria, justamente por não entender, vai além do simples escutar e se submete totalmente às palavras do Anjo num ato de fé que abdica do agir e, deixa assim lugar para que Deus atue totalmente nela.
            Se Maria ficasse somente na escuta ela perguntaria “o que devo fazer?”, mas nunca chegaria ao “eis aqui a serva do Senhor”. Esta última é a resposta de quem se submete na fé sem medir consequências. Abre-se ao puro dom de Deus. Assim, no mistério de Encarnação, não há nenhuma ação humana, mas somente abertura para a ação de Deus. “E o Verbo se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). É, na verdade, a liberdade sem mistura de constrangimento e de temor. Deus, por meio do Anjo, ajuda o ato de fé incondicional de Maria ao lhe dizer: “Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho” (Lc 3,30-31). A maravilha da concepção virginal é a resposta de Deus à fé de Maria, que crê em nome de toda a humanidade.

Escravos da lei, livres pela fé
            Não são poucos os cristãos que levam sua vida na escravidão da lei. Eles veem sua religião como um amontoado de leis que precisam ser observadas para não merecer o castigo e alcançar alguma recompensa. O cristianismo, como doutrina, possui seus mandamentos, sim. Quem os observa tem a segurança da lei. Mas a lei não deixa de ser uma imposição, que justamente por isso, dá o ensejo de se livrar dela. Submeter-se é preciso, porém a tentação de escapar por alguma interpretação favorável está sempre aí. Cria-se toda uma mentalidade legalista; imagina-se o peso do descumprimento e da obediência dos mandamentos. Tudo será colocado na balança. Conforme, para onde pende a balança, haverá castigos ou méritos.
            Esta visão, por mais justo que alguém pretende ser, provoca angústia e desconfiança. Ninguém pode se considerar totalmente puro, pois todos estão sujeitos ao erro. Em consequência Deus deixa de ser um Pai e se torna um carrasco. A expressão “cólera de Deus” não está totalmente no passado. Aliás, alguns pregadores usam de ameaças e da figura de Deus zangado, para forçar a “conversão” dos adeptos. Isto, na verdade, é forçar a situação. Não está baseado na lei do amor, ou melhor, não tem nada do amor de Deus, nem do amor dos irmãos. É tortura espiritual.
            Contudo, a fé em Jesus Cristo, quando é bem formada, leva ao consentimento de seu mandamento. O mandamento de Jesus é o amor. Não se pode experimentá-lo a não ser na liberdade gratuita. E isto somente se consegue com a fé de que tudo o que Ele ensinou com palavras e obras é verdadeiro. A convicção da verdade leva ao consentimento: “eu quero”. Torna-se opção livre e responsável, mas, justamente por isso, não se prende às questões do castigo e do mérito. Quem crê sabe abandonar-se no amor de Deus. Deixa que Ele – assim como Maria fez – conduza a história de sua vida, produzindo frutos, não para “vendê-los” mas para distribui-los como dons da graça aceitos na fé.
            Se a submissão à lei provoca angústia, a opção de fé produz a alegria da doação livre e generosa.
            Que Maria, a pobre serva do Senhor, com sua intercessão e com sua maneira de crer, ajude a todos nós para sermos cristãos de fato, não apenas de fachada, observantes de algumas leis.
Pe. Mário Fernando Glaab
www.marioglaab.blogspot.com.br


sábado, 29 de abril de 2017

Alegria da fé.

CRIADOS POR AMOR E PARA O AMOR

            O ser humano sempre fez, faz e fará perguntas sobre sua própria existência. Donde venho, para onde vou? Por que estou aqui? Qual é o sentido de minha vida? E coisas assim. Muitas respostas foram dadas; tentativas das mais diversas, provenientes de sábios, de religiosos, das religiões e das culturas de todos os tempos. Aliás, as religiões se propõem a “religar” o ser humano à sua verdade originária, dar-lhe as condições para “retornar” ao seu início onde se compreende também finalidade última de toda a existência.

Resposta judeo-cristã
            Sem criticar as muitas soluções ou caminhos encontrados pelas mais diversas tradições religiosas, culturais e buscas filosóficas; queremos nos ater ao que a fé de Israel e, depois, a fé cristã nos propõem.
            A característica da fé de Israel (Antigo Testamento) é de que Deus mesmo toma a iniciativa de vir ao encontro do ser humano para lhe “dizer” algo sobre o seu sentido mais profundo. Com isso não se pretende afirmar que os “inspirados líderes” do povo não buscassem ansiosamente o contato com Deus. Certamente eles, junto com o povo que acreditava e procurava viver sua fé, criaram as condições favoráveis para que Deus “pudesse” vir ao seu encontro, dizendo-lhes algo sobre si mesmo e sobre o sentido da vida e existência humanas.
            A este processo que veio para falar chamamos de Revelação. Deus, que por livre iniciativa, se apresenta na história deste povo que o busca, e lhe mostra sua vontade para ele. Contudo, não é tão simples assim. Para que o ser humano – concretamente, aquele povo -, pudesse acolher e crer no que lhe estava sendo revelado, tudo aconteceu no caminhar da história: Deus – Javé, como o chamavam – veio em socorro desse povo sofrido, ajudando-o a se libertar da escravidão para a vida como povo. Ele se mostrou como aquele que quer estabelecer uma aliança com um povo livre. Ele sendo o Senhor e o povo sendo seu povo livre que pudesse viver.
            Tudo isso desembocou no conceito de criação. Assim como Deus constituiu (criou) um povo para poder existir e viver na liberdade, também criou o homem e tudo o que existe para a liberdade. Esta fé na criação foi assumida igualmente pelos cristãos. Mas, para que criou Deus todas as coisas?

Criados e escolhidos, escolhidos e criados
            A fé judaica foi aprofundada à luz de Jesus Cristo. Hoje, quando falamos da fé bíblica na criação, entendemos os dois testamentos, o Antigo e o Novo.
            A fé bíblica nos ensina que nós, e conosco todas as criaturas, existimos porque Deus é amor. Ele nos cria e escolhe para o amor; ou também podemos afirmar que nos escolhe por amor e, em consequência, nos cria. Todas as criaturas são fruto do amor criador de Deus, mas somente nós, os humanos, pela consciência sabemos disso e, damos nossa adesão de fé, comprometendo-nos a corresponder livremente ao amor criador de Deus. Portanto, Deus cria para se revelar, revela-se para amar e deixar-se amar e, assim, compartilhar vida. Mesmo que o ser humano seja infiel aos planos de seu Criador, este não se deixa vencer pela desobediência do pecador. Oferece-lhe redenção e promessa de vida em plenitude. Convida o ser humano a já, aqui e agora, fazer a experiência desta vida, deixando-se envolver no mistério do amor verdadeiro que é o amor de Deus em nós: o Espírito derramado em nossos corações.
            Não é possível, então, separar as questões da criação, da redenção e da plenitude. O amor de Deus é a causa última de tudo. E, uma que este amor quer se compartilhar, escolhe, cria, redime e salva. Quanto mais o ser humano responde positivamente com amor à escolha, à criação, à redenção e à salvação, tanto mais se realiza e se aproxima da plenitude de Deus que é vida sem fim.

Tudo é graça
            Se tudo parte e vai para o amor de Deus criador, redentor e salvador, pode-se dizer que tudo é graça. Mas, como poderemos ser gratos a Deus por tudo que ele fez e faz por nós? Viver com alegria!
            A fé não admite tristeza, pois ela coloca a criatura diante do Criador que a ama. Este amor do Criador lhe basta. Esta é a realização mais profunda do homem; a alegria que vem de Deus. A alegria da fé transforma tudo. Tudo será valorizado e tudo terá sentido. Cada criatura ocupará o seu lugar, e nenhuma será negada, desprezada ou matada. Cada ser humano será convidado à festa da alegria, onde não haverá mais choro, tristeza ou dor.
            Só a gratidão das pessoas felizes pode dizer: “Tudo é graça”; porque acolhem-na para compartilhá-la.
            Alguém vai dizer que no mundo existem também as sombras, as trevas, a dor e a morte. É verdade! Mas tudo isso não vem da luz (graça), mas dos obstáculos postos à luz. Sejamos gratos a Deus, ao semelhante, e a todas as criaturas; e, na alegria testemunhemos o amor sem medidas de nosso Deus, ajudando na tarefa de tirar tudo o que obstrui o livre caminho para todos, unindo-nos à festa da vida. Deus, em Jesus, venceu as trevas, o mal e a morte: alegrai-vos!
Pe. Mário Fernando Glaab

sábado, 22 de abril de 2017

Hunsrikisch Spessje

DE PFARRA UN DIE KAPLENE

De Religionslehra wo doch groat am erkleere was des en Pfarra is, un die Unnaschied zwischen Pfarra um Kaplan. Dan hot er gessoat: “Pfarra is in de Pfarrei de Hirt, das is de wo die Schofe toke odde uffpasse tut, zum beispiel”. Dan, fa sien ob die Kinna es verstan hon, frot er weita: “Wea sin dan in dem Vergleichniss die Schofe?” Ein Bubje antwat gleich: “Ei dat sen mia, die Leit wo in di Kerich gehn”. “Gut”, parlamentier de Lehra, un frot nochmol weita: “un wea sin dan in denne Verheltnisse die Kaplene?” Noh einige stille Minute hat dat Fritzje de Finga gehob. “Já, Fritz”, soat de Professa: “Die Kaplene sin die Schofhun!”, erklert dea Lauskerl.
Es is doch traurich mit de Kinna in de heitiche Toche, die sin so weit voa; was die eltere Leit net menne dat hon die Lauskerle schun alles bekept.
Glaabsmario

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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Páscoa - Esperança

PÁSCOA – ESPERANÇA RENOVADA E COMPARTILHADA

            Os tempos litúrgicos possuem características próprias para envolver os fiéis em experiências espirituais sempre novas. Neste sentido, o tempo pascal proporciona, para quem o vive intensamente, forte renovação da esperança.

A Ressurreição do Crucificado
            Páscoa é, para os cristãos, a comemoração da ressurreição de Jesus de Nazaré que foi crucificado. Jesus de Nazaré foi aquele homem que passou toda a sua vida fazendo o bem a todos, pois tinha consciência de que recebera esta missão de Deus, seu Pai. Ele se alimentava espiritualmente na intimidade com o Pai. Passava horas e horas em oração. Na oração encontrava as forças necessárias para não esmorecer diante dos desafios e das incompreensões. Onde havia algum pobre, doente, pecador ou excluído, lá o Homem de Nazaré agia, sempre com a maior caridade possível. Curou a muitos e a todos anunciou que Deus é Pai cheio de amor e compaixão. Sua misericórdia não tem limites.
            Estas palavras e gestos de Jesus perturbaram os ricos, os poderosos e os que se julgavam os bons. Tramaram a sua morte com a pior de todas as condenações. A crucifixão era para os criminosos e rebelados, considerados malditos, tanto que eram executados fora da cidade. Aquele que fez tudo por amor mereceu esta morte ignominiosa. Foi o preço que Jesus pagou por levar até o fim sua missão de instaurar o Reino do Amor, da Justiça e da Fraternidade, o Reino de Deus neste mundo.
            Páscoa é, portanto, a vitória do bem sobre o mal: a ressurreição do Crucificado, daquele que foi condenado por revelar o amor incondicional de Deus para todas as suas criaturas. A Ressurreição, muito mais do que voltar à vida passageira, é vida plena; vida definitiva em Deus, que é só amor. Aquele que só amou, agora está no amor definitivo de Deus. Na ressurreição de Jesus – o Crucificado – Deus pronunciou a última palavra sobre a missão dele e sobre o mundo. Deus decretou a vitória do bem e a derrota do mal. O Crucificado vive definitivamente por ter dado a vida pela causa do bem. Deu a sua vida para que o ser humano pudesse ter vida, esta é a vontade de Deus. Portanto, no Ressuscitado Deus já disse o que quer para a humanidade: que todos vivam no amor para também terem vida em plenitude.

Nossa Páscoa
            Para os cristãos a Páscoa é deixar-se envolver no mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. É bem mais do que algumas celebrações nas igrejas. A preparação, os ritos da semana santa e a celebração da vigília pascal estão aí para atualizar na vida do cristão o mistério de Jesus Cristo que continua a sua missão de salvar a toda a humanidade. Em outras palavras, é a renovação da fé, da esperança e da caridade cristãs.
            Assim como Jesus de Nazaré foi conscientemente até à cruz por causa da sua missão, também a cristã e o cristão vão com Ele no caminho da cruz, vivendo no amor misericordioso, cheio de esperança e de fé. O mundo coloca muitas cruzes no caminho das pessoas, especialmente das que, como Cristo Jesus, estão do lado dos mais fracos, dos pobres, dos injustiçados, dos espoliados e dos pecadores.
            A Páscoa, para nós hoje, tem sentido somente se de fato une à missão de Jesus que continua a salvar o que “está perdido”. O cristão que não se dispõe a isso, está negando sua identidade – é cristão falso. Mas, por outro lado, todo aquele que, apesar das fragilidades e pecados, confia em Deus, se lança na obra do bem, da justiça e do perdão, espera confiantemente na bondade de Deus que há de pronunciar um dia também sua Palavra definitiva sobre toda a criação, este se renova na fé, no amor, mas principalmente na esperança.
            Assim como o amor assumido por Jesus até as últimas consequências o levou à morte, também o amor assumido pelo discípulo de Jesus pode levá-lo à morte; todavia, como Jesus ressuscitou, ressuscitarão com Ele os que sabem amar. Aliás, o amor tem algo parecido com a morte, pois na morte o ser humano se entrega totalmente e nada mais pode segurar para si; assim, no amor a pessoa não reserva nada para si mesma, doa-se confiantemente para o outro, no qual está o Outro que dirá a sua Palavra Definitiva.

Esperança compartilhada
            Jesus, como dissemos, compartilhou com a humanidade sua intimidade com Deus, seu Pai. Esta era a sua missão: anunciar a todos que o Reino de Deus está no meio de nós.
            A missão da cristã e do cristão não pode ser diferente. Isto exige uma profunda convicção de que existe esperança para todo ser humano: que Deus criou todos para a realização plena em sua comunhão. Que tal, se neste tempo pascal compartilhássemos esta verdadeira convicção de fé: Deus que nos cria para a felicidade em comunhão com ele, chama a todos desde sempre, e não houve desde o começo do mundo um só homem ou uma só mulher que não tenham nascido amparados, habitados e promovidos por sua ação reveladora e por seu amor incondicional. Que, portanto, não tenham direito à esperança.
            Uma vez que o Crucificado é o Ressuscitado, todos têm direito à esperança. Isto queremos compartilhar neste tempo pascal. Feliz Páscoa com a esperança renovada.
Pe. Mário Fernando Glaab
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segunda-feira, 13 de março de 2017

Um sábio falando

Achei interessante e bonita a afirmação de Johann Wolfgang von Goethe: "O tempo rende muito quando é bem aproveitado" (Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, do dia 07/03/2017), e resolvi compartilhá-la.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Quaresma - Conversão

SER PARA O POBRE, ESTAR COM O POBRE OU SER COMO O POBRE

            Está em moda dizer que é preciso se converter para Jesus. Isso se ouve frequentemente entre todos os tipos de cristãos, tanto entre evangélicos quanto entre católicos, alguns o fazem até fanaticamente. Pode-se perguntar sobre que Jesus se entende quando se faz essa afirmação. Trata-se de Jesus que resolve todos os meus problemas, porque é o Senhor glorioso, ou daquele Jesus que, conforme os evangelhos, optou pelos últimos da sociedade, pelos doentes, pelos excluídos, pelos pecadores e todo tipo de pobres? Converter-se para qual deles?
            No início da quaresma e no rito da imposição das cinzas na abertura desse tempo litúrgico, ouve-se o apelo de Jesus “Convertei-vos e crede na Boa Nova” (Mc 1,15); de que conversão está falando Jesus? Reflitamos um pouco.
Converter-se e crer
            Converter-se e crer exige decisão e esforço contínuos. Conforme os evangelhos, conversão consiste em redirecionar a caminhada. Tomar outro rumo. Se antes se avançava em uma direção, agora é preciso seguir em outra – seguir o Mestre Jesus. Mas para que isto seja possível, é necessário deixar tudo o que motivava a caminhada anterior. É uma questão de valores. Renunciar aos valores que orientavam a vida, e aderir a novos valores, os de Jesus. O que sustenta esta mudança não pode ser outra coisa a não ser fé. Fé, não em alguma coisa, mas no próprio Jesus. Caso antes se seguia um cristo que prometia vida fácil, honras, sucessos e muitas bênçãos, e ainda a certeza de que um dia se vai para o céu; agora é preciso ser discípulo de um Jesus que anda pelas estradas empoeiradas da Palestina e se entretém com os indesejáveis doentes e malditos que encontra à beira do caminho. Ouvir dele as duras palavras que se alguém quer segui-lo deve renunciar a si mesmo e tomar sua cruz cada dia (cf. Lc 9, 23), e não retroceder.
            Portanto, converter-se e crer, significa concretamente, voltar-se para Jesus de Nazaré (atualizando-o para os dias atuais e para a realidade religiosa, social e política de hoje), segui-lo humildemente, crendo que somente ele pode nos mostrar e fazer experimentar o que Deus quer de nós. Crer em Jesus é se calar diante dele, deixar que ele fale, que ele mostre, que ele seja o Mestre. Aquele que se aproxima de Jesus para, antes de tudo, falar do que precisa, do que espera e do que Deus deve fazer com os outros, ainda não conhece Jesus de Nazaré proclamado pelos evangelhos e pela Igreja; e muito menos, acredita nele.

Jesus, o pobre
            Não adianta tentar esconder o sol com a peneira. Jesus de Nazaré não é alguém que gosta dos pobres, mas ele é o pobre. Jesus de fato se identifica com os irmãos e irmãs menores (os pobres de todos os tipos): “Todas as vezes que fizestes alguma coisa a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Isto deve estar claro para todos, e não pode deixar de examinar a consciência de cada cristão. Eles, os pobres, serão os juízes definitivos, uma vez que Jesus se identifica com eles, e a atitude face a eles decide o futuro do ser humano (cf. Mt 25,45). Pode-se afirmar que, rejeitando o pobre, rejeita-se o Cristo crucificado, pois ele é o crucificado por ser o pobre e por ter defendido todo tipo de pobre.
            A partir do seguimento de Jesus-pobre, pode-se chegar a três atitudes: uma primeira que volta a pessoa para o pobre. Isto é, atende algumas necessidades dele dando esmolas. É o que normalmente se chama de assistencialismo. É um mínimo de caridade; mas deixa o sujeito em sua situação cômoda sem precisar mudá-la. Não é conversão.
            Outra é a de quem está com o pobre. Partilha sua caminhada, seu modo de rezar e também de conviver. É, sem dúvida, um modo de amor solidário. Transporta a pessoa para o mundo do pobre e, ele chega a experimentar em sua pele o que os pobres e miseráveis sentem em suas necessidades mais básicas. Existe, todavia, uma terceira atitude: a de Jesus mesmo. É a daquele que não somente se volta para o pobre; não está com o pobre, mas é pobre. Este é o bem-aventurado que tem a graça de despojar-se de tudo interior e exteriormente para viver com o estritamente necessário. Somente este pode-se alegrar como os pobres se alegram (Jesus se alegrava com os campos floridos, com as crianças e com o Pai que cuida de tudo e de todos); sofrer como os pobres sofrem, e rezar como os pobres rezam.
            Viver assim, como Jesus-pobre, não é fácil, mas é graça do Espírito: um verdadeiro carisma. Que bom seria os que almejam por carismas tivessem esta consciência, e se optassem verdadeiramente por Cristo e pela Igreja dos pobres. Se dessem este testemunho ao mundo, e se vivessem “a alegria do Evangelho” sem máscaras e sem pretensões mundanas.
            Jesus Cristo, encontrado no pobre concreto de nossas ruas, é sacramento de salvação. Ele, acolhido, seguido e vivido, levará para a intimidade do próprio Deus. Abrirá as portas do Reino da Trindade Eterna. Foi Jesus quem o ensinou com palavras e exemplos, mas principalmente, vivendo pobremente, e, vindo hoje ao nosso encontro no pobre.

Doar-se ao Pobre
            Converter-se a Jesus é bem mais do que dizer eu o encontrei quando fui a determinada igreja. Converter-se a Jesus consiste em assumir o seu projeto de vida, a sua maneira de ser. Portanto, consiste em doar-se como ele se doou: ao pobre, todo inteiro.
            O primeiro passo, no processo de conversão, deve ser a conversão da mentalidade: se Jesus é o pobre, nem todos os pobres são vagabundos! Depois vem os atos: nunca afastar o olhar do pobre; nunca negar uma palavra de consolo; nunca deixar de lhe estender a mão; nunca deixar de lhe dar alguma coisa, por mínima que seja (talvez somente um sorriso). Aquele que infalivelmente pretende encontrar o Cristo vivo e verdadeiro deve compartilhar a vida com os pobres. O pobre abre a porta para o céu.
Pe. Mario Fernando Glaab

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Cristão e comunidade

COMUNIDADE CRISTÃ É COMUNHÃO

            Por muitos anos se entendia que a comunidade cristã ideal é aquela onde os pobres são humildes e os ricos bons. Isso, foi pregado e ensinado até mesmo por pessoas importantes das altas esferas eclesiásticas. Eles, certamente tinham boas intenções, mas, será que de fato isso era o melhor para as comunidades? Queriam, sem dúvida, harmonia entre os diversos segmentos da sociedade. Porém, aprofundando mais o sentido da pessoa e do evangelho de Jesus de Nazaré, percebe-se que isso está longe de ser conforme o que ele viveu e anunciou.

Pobres humilhados e ricos bons
            Partindo das bem-aventuranças, muitas vezes, a Igreja caía na confusão de ensinar que Deus queria a pobreza das pessoas para que pudessem gozar de felicidade. Confundia pobreza (miséria) com liberdade de espírito. Ser pobre, no contexto da pregação de Jesus, é muito mais do que não ter bens; é estar livre deles para aceitar a pessoa e a proposta de Jesus, seu Reino de justiça e de paz.
            Ensinava aos pobres que necessitavam ser humildes e submissos para que assim pudessem ser ajudados. Não deviam ser “teimosos”, nem “reclamões”. E mais ainda, deviam rezar pelos ricos, para que eles sempre tivessem muitos bens e, assim sendo bons, os ajudassem sempre de novo!
            Igualmente, a partir da interpretação superficial de diversos textos bíblicos, principalmente do Antigo Testamento, justificavam-se as riquezas dos ricos com as bênçãos de Deus dados aos bons. Hoje sabe-se que a “heresia”  chamada de teologia da prosperidade faz justamente isso! Alguém possui muitos bens porque Deus o abençoou, dizia-se.
            Para que Deus continuasse a olhar com bons olhos para os ricos, pedia-se que fossem sempre bons; que ajudassem os pobres. (Falava-se com entusiasmo dos ricos que dão esmolas). Os ricos que deram algo para a comunidade são reconhecidos, e muitas vezes colocados em destaque, e, têm seus privilégios.
            O pobre que sofre e morre sem a mínima dignidade, sem condições de sustentar e educar sua família, é sem sorte e, pior, padece porque Deus assim o quer! Blasfêmia!

Deus é comunhão
            Mesmo que a partir do Vaticano II a Igreja e o mundo são convidados a olhar a realidade com outros olhos – os do Evangelho e da pessoa de Jesus de Nazaré -, ainda se constata muito da visão errada, como vimos. Deus, com certeza, nunca quis esta divisão entre seus filhos, ricos bons e pobres humilhados. Ele, para quem crê no mistério trinitário, é Pai, é Filho e é Espírito de Amor. Isto é, comunhão. O Pai ama e se doa ao Filho; o Filho ama e se doa ao Pai; e, este Amor é o Espírito. Comunhão perfeita.
            O Deus Uno e Trino não nos ensina uma boa moral, mas Ele mesmo se comunica e se doa. Que quer dizer isso? Muito mais do que dar conselhos aos pobres e outros tantos aos ricos; quer dizer que este Deus convida tanto pobres como ricos a entrar no seu mistério, deixando-se transformar pelo amor verdadeiro que se doa. É a graça de Deus oferecida ao ser humano. É Deus mesmo que se comunica para que o ser humano possa experimentá-lo e começar a viver vida nova.
            Se o Pai, o Filho e o Espírito Santo são comunhão, os cristãos – que professam este mistério – tem a missão de retratar esta comunhão no mundo. Claro é que tal comunhão sempre será imperfeita, uma vez que o ser humano é imperfeito, mas colaborando com a graça de Deus, o ser humano pode fazer “grandes coisas”.

Ser cristão
            Não existe outra saída, ser cristão de verdade não admite continuar aceitando que é normal existirem os ricos abençoados e os pobres amaldiçoados. Jesus é claríssimo: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34), isto desafia a qualquer um. Aceitar a graça de Deus exige transformação. Se Deus é doação total, o cristão deve começar a se doar, e onde houver qualquer injustiça, qualquer sinal de egoísmo, lá ele vai ser uma pedra de tropeço. O cristão não pode se acomodar. Ele, necessariamente, vai ter que lutar contra tudo o que causa separação entre as pessoas, também o que causa a separação entre os “ricos bons” e os “pobre humilhados”. É o que a Igreja em nosso continente sul-americano tem anunciado com muita força nas últimas décadas: o Evangelho precisa transformar as estruturas e os sistemas corruptos que são causa de tantos males.
            O cristão, coerente com sua fé, não pode aceitar interesses espúrios, negociações vantajosas, mas prejudiciais aos outros, falsas ideologias que justificam os lucros exorbitantes dos gananciosos. Se, para Deus, o amor é o seu natural, como dizem os grandes teólogos, também para o cristão o amor deve ser o seu natural.
            Se, conforme Jesus anunciou, no Reino, Deus não é o Senhor, mas o Pai misericordioso, também entre os cristãos não podem mais haver os “senhores” e os “súditos”, mas somente os irmãos, lá reina a paz, fruto da justiça e do amor. Amor este, infundido pelo Espírito do Pai e do Filho, mas acolhido e vivido em comunidade. Portanto, a comunidade cristã não pode ser outra coisa do que comunhão. Caso em nossas comunidades não existir uma verdadeira busca desta comunhão, ainda não entendemos nada do mistério do Deus-Amor revelado por Jesus de Nazaré, que tantas vezes proclamamos com o Senhor, sem saber o que isso implica.
Pe. Mário Fernando Glaab

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